terça-feira, 4 de abril de 2017

Pré-projeto de Criação - 1ª Versão

Fragmentos cotidianos: Um percurso por entre microuniversos urbanos

Interesses nos Fragmentos de Heráclito:
- Escuta do cotidiano em espaços na cidade;
- Percepção e jogo com os padrões dos movimentos dos corpos nos espaços na cidade;
- Os animais de Heráclito e as possíveis relações com questões do corpo urbano civilizado das/nas cidades contemporâneas;
- Os ciclos cósmicos e corporais, os elementos, as matérias da natureza e os sentidos corporais (escuta dos sentidos, escuta de corpo todo, corpo/ambiente, corpo/cidade).

Proposta de ação:
A ideia é desenvolver uma performance que consistirá na proposição de uma caminhada junto ao público por alguns espaços arquitetônicos na Universidade de Brasília, com cerca de 15 min de duração por alguns lugares pré-definidos, na experiência de um trajeto coletivo. Durante o trajeto, os performers proporão algumas composições e intervenções no e com os espaços construídos, compreendidos como espaços vividos, espaços de experiência e de jogo, entre corporeidades e espacialidades. A busca é por experimentar corporeidades preenchidas por espacialidades diversas e específicas, em um jogo constante entre corpo e espaço, movimentos e paragens.

Ao iniciar, os participantes são informados da caminhada e da condução do trajeto pelos performers. Será pedido que abram/ampliem a atenção para os sentidos todos do corpo (tato, olfato, paladar, visão e audição) e será dada uma câmera ao público, pedindo que quem tiver interesse se sinta convidado a usar a câmera e registrar, do modo que quiser, a performance.

Essa ideia de caminho aparece em alguns fragmentos de Heráclito e também a de observação do cotidiano da cidade como processo criativo e também obra. Os Fragmentos são o filósofo passeando pela cidade e falam do cosmos, do viver em sociedade e do sagrado/religião.

Os Fragmentos apontam para uma escuta ampliada do cotidiano, dos espaços da cidade e suas relações com a nossa sociedade e com nosso modo de compreender e lidar com as forças da natureza. Essa escuta me leva a pensar nos padrões de movimento e comportamento que se apresentam na cidade e, também, nos modos de uso previstos e estabelecidos para o corpo e o espaço no contexto urbano e cotidiano. Para lidar com esses padrões perceptivos e de ação do corpo na cidade, pretendo me utilizar de um procedimento que Heráclito faz uso: o deslocamento do referente de seu contexto e sentidos reconhecidos, provocando estranhamento e gerando outros sentidos.

A proposta é investigar como os espaços urbanos e arquitetônicos podem convidar os corpos ao jogo e a composição, através do entendimento do corpo como campo relacional de forças e trocas contínuas com o ambiente. Além disso, a performance pretende ser um dispositivo de ampliação da percepção para o espaço, que desperte performer e público a olhar, perceber, sentir e dizer os espaços sob outros pontos de vista, outras perspectivas. Esse dispositivo pretende revelar o espaço como lugar de múltiplas práticas e discursos, microuniversos cotidianos e urbanos, sendo o corpo espaço de discurso e espaço de ação, criação, memória e reflexão, e a performance um dispositivo que dispara e desdobra questões nos cruzamentos entre as dimensões ético-estética, formal-geométrica, social, moral, histórica e política dos corpos e espaços construídos, vividos, urbanos e arquitetônicos.

A performance pretende abordar e apontar o caráter construído, apreendido e limitante das relações com o corpo e o espaço na cidade. Heráclito, em seus fragmentos, desperta a atenção para uma escuta ampliada da cidade, para aquilo que é visível e também invisível, uma ordem oculta de todas as coisas, mas que também se manifesta.

Por isso, pretendo evidenciar a concepção construída atualmente de um corpo urbano e civilizado que se dá numa busca por controle do corpo e da natureza e que se revela na cidade, um corpo em se opõe aos animais. Alguns fragmentos de Heráclito relacionam homens e animais. As figuras e movimentações de animais servirão também como estímulo criativo no processo. Pretendo ainda, neste sentido, abordar os caráteres médico, jurídico e militar presentes nos espaços urbanos contemporâneos e em nossa relação com o próprio corpo e com a cidade. Nesse sentido, serão utilizados elementos como luvas, toucas, sapatos de isolamento, máscaras médicas, roupas de exame médico, hospitalares, etc. nas experimentações ao longo do processo.

O trabalho pretende evidenciar contradições ou oposições de sentidos, ideias, imagens, através das ações que gerem um cruzamento entre diferentes camadas de sentido entre corpo e espaço na cidade. Revelar aspectos invisíveis ou à margem da percepção dominante e dos modos de uso preestabelecidos e previstos para os corpos e espaços urbanos e arquitetônicos. Trazer à percepção aspectos normalmente postos fora de cena na vida social, a sujeira e as impurezas do espaço urbano e do meio social, e aspectos como o nojo, a doença, a morte, o feio, o estranho e a decrepitude.

Outras linguagens
Pretendo dialogar com outras linguagens artísticas, além da dança, teatro e performance, sendo essas a fotografia e o audiovisual. Os registros obtidos com uma câmera ao longo do processo criativo serão parte da criação da obra. Fotos, áudios e vídeos obtidos a partir dos seguintes dispositivos: uma câmera de foto/vídeo, um gravador de som e celulares. Esses registros serão feitos durante o processo criativo pelos próprios performers durante as experimentações/performances, como ação e registro a um só tempo. Outros registros serão feitos também por um artista que terá essa função específica no trabalho. Esses registros serão também utilizados durante o processo e também na realização da performance, compondo com as ações entre os corpos e espaços, através de sons reproduzidos mecanicamente e imagens projetadas nos espaços da cidade e nos corpos dos performers.

O processo criativo
O processo criativo será desenvolvido a partir de questões feitas aos performer e respondidas ao longo de experimentações nos espaços a serem definidos no processo criativo. Essas experimentações constituem diferentes versões do trabalho que serão dobradas, desdobradas e redobradas ao longo do processo. As questões se referem a uma escuta ampliada e contínua dos padrões que organizam as ações nos espaços arquitetônicos definidos. Algumas questões que já surgem são: o que percebo/sinto em cada espaço a cada ida, ou a cada experimentação? Que ações surgem e porque em cada lugar investigado esteticamente a partir da percepção das sensações e dos movimentos entre os corpos e os espaços em relação?

Pretendo trazer à tona um jogo entre alguns opostos complementares: a caminhada em linha contínua e os espaços como microuniversos fragmentários, peças do cotidiano que compõem uma cidade; as ações que se repetem, tal qual os padrões de ações e relações, os trajetos, estados corporais e afetivos, os modos de sentir e perceber que se estabelecem nas rotinas do dia-a-dia de cada um e o presente sempre instável e imponderável, que influi na composição na forma dos acasos que acontecem e interferem na relação entre os corpos, os espaços e as organizações previstas pelo próprio programa da performance.

A caminhada resultante do processo criativo pretende passar por diferentes espaços físicos, arquitetônicos e contextuais, espaços mais abertos (mais ligados as matérias da natureza – terra, grama, ar), espaços mais construídos (construções espaciais e arquitetônicas, o asfalto, o concreto, o ferro e o vidro), espaços mais ocupados e mais ermos, o espaço universitário (ambiente acadêmico) e o espaço da rua.

Fragmentos selecionados inicialmente:
Conhecimento e escuta:
- I: Ouvindo não a mim, mas ao lógos, é sábio concordar ser tudo-um. (p. 197)
- IX: Bem-pensar é a maior virtude, e sabedoria dizer coisas verdadeiras e agir de acordo com a natureza, escutando-a (p. 198)
- XIV: Lasso, o homem em tudo deixa-se desvanecer-se diante do lógos (p. 199)
- XVII: Do lógos com que constantemente lidam, divergem, e as coisas que a cada dia encontram revelam-se-lhes estranhas (p. 199)
- LXXVIII: O pensar é comum a todos (p. 210)
- LXXXIX: Em todos os homens está o conhecer a si mesmo e bem-pensar (p. 210)
- XCV: Se não esperar, não encontrará o inesperado, sendo não encontrável e inacessível (p. 212)
- CVI: Eu busco a mim mesmo (p. 214)
Cosmo:
- XXIX: O cosmo, o mesmo para todos, não o fez nenhum dos deuses nem nenhum dos homens, mas sempre foi, é e será fogo sempre vivo, ascendendo-se segundo medidas e segundo medidas apagando-se (p. 201)
XXX: Das coisas lançadas ao acas, a mais bela, o cosmo (p. 202)
-XXXIII: Heráclito diz ser o cosmo, para os acordados uno e igual, enquanto, dos que estão deitados, cada qual se volta para o seu cosmo particular (p. 202)
- XLIV: Sol, novo a cada dia (p. 204)
- XLVI: A natureza de cada dia é uma e a mesma (p. 204)
Caminho e alma:
- XLVII: Caminho: em cima, embaixo, um e o mesmo (p. 204)
- XLVIII: Caminho dos pisoeiros, reto e curvo, é um e o mesmo (p. 204)
- XCVI: Não encontrarias os limites da alma, mesmo todo o caminho percorrendo, tão profundo logos possui (p. 213)
- XCVII: Da alma é um logos que a si mesmo aumenta (p. 213)
- XCIX: As almas farejam no invisível (p. 213)
- CIII: Recordar-se também do que esquece por onde passa o caminho (p. 214)
Transformações:
- XLIX: No mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos (p. 205).
- L: Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio (p. 205).
- LII: As coisas frias esquentam-se, o quente esfria-se, o úmido seca, o seco umidifica-se (p. 206).
- LV: Para as almas é prazer ou morte tornarem-se úmidas (p. 206)
Sentidos corporais (modalidades sensoriais):
- LXXIV: Dizia ser a presunção doença sagrada e a visão, mentir (p. 209)
- LXXV: Os olhos são, de fato, testemunhas mais precisas do que os ouvidos (p. 209).
- LXXVI: Para os homens que tem almas bárbaras, olhos e ouvidos são más testemunhas (p. 209).
- LXXVII: Do que há visão, audição, aprendizado, eis o que eu prefiro (p. 209).
Animais:
- XIII: Cães ladram somente para quem não reconhecem (p. 199)
- LXIII: Uma só coisa contra todas as outras escolhem os melhores, a glória eterna dos mortais, a massa, porém, está empanzinada como o gado (p. 207)
- CXIV: Água do mar: a mais pura e a mais impura: para os peixes, potável e vital, para os homens, impotável e deletéria (p. 215)
- CXVI: O mais sábio dos homens, diante de deus, um macaco revelar-se-á, na sabedoria, na beleza e em tudo mais (p. 215)
- CXVII: O macaco mais belo é feio comparado ao gênero humano (p. 216)
- CXVIII: Asnos prefeririam ramagens a ouro (p. 216)
- CXIX: Se a felicidade estivesse nos deleites do corpo, diríamos felizes os bois quando encontram ervilhaca para comer (p. 216)
- CXX: Em lama compram-se os porcos mais do que em água limpa (p. 216)
- CXXI: Os porcos lavam-se na lama, as aves rasteiras no pó (p. 216)
- CXXII Tudo que rasteja partilha da terra (p. 216)
- CXXX: Assim como a aranha no centro da teia logo sente quando uma mosca rompe qualquer fio de sua teia e, deste modo, corre pressurosa para lá, como se temesse pela integridade do fio, também a alma do homem, lesada qualquer parte do corpo, dirige-se rapidamente para lá, como se não suportasse a lesão do corpo a que está unida firme e proporcionalmente. (p. 218)
Doença:
- CXIV: A doença faz da saúde coisa agradável e boa, a fome da saciedade, a fadiga do repouso (p. 215)
- CXXVII: Os médicos, cortando, queimando e de todas as maneiras torturando, ainda acusam despropositadamente os doentes por não receberem deles, de jeito nenhum, a remuneração que merecem, fazendo os bens e as doenças serem as mesmas coisas (p. 217)

Obra de referência dos Fragmentos:
COSTA, Alexandre. Heráclito: Fragmentos selecionados. Tradução, apresentação e comentários por Alexandre Costa. – Rio de Janeiro: DIFEL, 2002.

ResíDuos
Rastros e restos
Rastroar
Caminhos insólitos
Incomundo
Incontitude
Corpoacaminho
Canteiros de trilhos

Trilhos

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