Fragmentos cotidianos:
Um percurso por entre microuniversos urbanos
Interesses nos
Fragmentos de Heráclito:
- Escuta do cotidiano em espaços na cidade;
- Percepção e jogo com os padrões dos movimentos dos corpos
nos espaços na cidade;
- Os animais de Heráclito e as possíveis relações com
questões do corpo urbano civilizado das/nas cidades contemporâneas;
- Os ciclos cósmicos e corporais, os elementos, as matérias
da natureza e os sentidos corporais (escuta dos sentidos, escuta de corpo todo,
corpo/ambiente, corpo/cidade).
Proposta de ação:
A ideia é desenvolver uma performance que consistirá na
proposição de uma caminhada junto ao público por alguns espaços arquitetônicos
na Universidade de Brasília, com cerca de 15 min de duração por alguns lugares
pré-definidos, na experiência de um trajeto coletivo. Durante o trajeto, os
performers proporão algumas composições e intervenções no e com os espaços
construídos, compreendidos como espaços vividos, espaços de experiência e de
jogo, entre corporeidades e espacialidades. A busca é por experimentar
corporeidades preenchidas por espacialidades diversas e específicas, em um jogo
constante entre corpo e espaço, movimentos e paragens.
Ao iniciar, os participantes são informados da caminhada e da
condução do trajeto pelos performers. Será pedido que abram/ampliem a atenção
para os sentidos todos do corpo (tato, olfato, paladar, visão e audição) e será
dada uma câmera ao público, pedindo que quem tiver interesse se sinta convidado
a usar a câmera e registrar, do modo que quiser, a performance.
Essa ideia de caminho aparece em alguns fragmentos de
Heráclito e também a de observação do cotidiano da cidade como processo
criativo e também obra. Os Fragmentos são o filósofo passeando pela cidade e falam
do cosmos, do viver em sociedade e do sagrado/religião.
Os Fragmentos apontam para uma escuta ampliada do cotidiano,
dos espaços da cidade e suas relações com a nossa sociedade e com nosso modo de
compreender e lidar com as forças da natureza. Essa escuta me leva a pensar nos
padrões de movimento e comportamento que se apresentam na cidade e, também, nos
modos de uso previstos e estabelecidos para o corpo e o espaço no contexto
urbano e cotidiano. Para lidar com esses padrões perceptivos e de ação do corpo
na cidade, pretendo me utilizar de um procedimento que Heráclito faz uso: o
deslocamento do referente de seu contexto e sentidos reconhecidos, provocando
estranhamento e gerando outros sentidos.
A proposta é investigar como os espaços urbanos e
arquitetônicos podem convidar os corpos ao jogo e a composição, através do
entendimento do corpo como campo relacional de forças e trocas contínuas com o
ambiente. Além disso, a performance pretende ser um dispositivo de ampliação da
percepção para o espaço, que desperte performer e público a olhar, perceber,
sentir e dizer os espaços sob outros pontos de vista, outras perspectivas. Esse
dispositivo pretende revelar o espaço como lugar de múltiplas práticas e
discursos, microuniversos cotidianos e urbanos, sendo o corpo espaço de discurso
e espaço de ação, criação, memória e reflexão, e a performance um dispositivo
que dispara e desdobra questões nos cruzamentos entre as dimensões ético-estética,
formal-geométrica, social, moral, histórica e política dos corpos e espaços
construídos, vividos, urbanos e arquitetônicos.
A performance pretende abordar e apontar o caráter
construído, apreendido e limitante das relações com o corpo e o espaço na
cidade. Heráclito, em seus fragmentos, desperta a atenção para uma escuta ampliada
da cidade, para aquilo que é visível e também invisível, uma ordem oculta de
todas as coisas, mas que também se manifesta.
Por isso, pretendo evidenciar a concepção construída
atualmente de um corpo urbano e civilizado que se dá numa busca por controle do
corpo e da natureza e que se revela na cidade, um corpo em se opõe aos animais.
Alguns fragmentos de Heráclito relacionam homens e animais. As figuras e movimentações
de animais servirão também como estímulo criativo no processo. Pretendo ainda, neste
sentido, abordar os caráteres médico, jurídico e militar presentes nos espaços
urbanos contemporâneos e em nossa relação com o próprio corpo e com a cidade.
Nesse sentido, serão utilizados elementos como luvas, toucas, sapatos de
isolamento, máscaras médicas, roupas de exame médico, hospitalares, etc. nas
experimentações ao longo do processo.
O trabalho pretende evidenciar contradições ou oposições de
sentidos, ideias, imagens, através das ações que gerem um cruzamento entre
diferentes camadas de sentido entre corpo e espaço na cidade. Revelar aspectos
invisíveis ou à margem da percepção dominante e dos modos de uso
preestabelecidos e previstos para os corpos e espaços urbanos e arquitetônicos.
Trazer à percepção aspectos normalmente postos fora de cena na vida social, a
sujeira e as impurezas do espaço urbano e do meio social, e aspectos como o nojo, a doença, a morte, o feio, o estranho e a decrepitude.
Outras linguagens
Pretendo dialogar com outras linguagens artísticas, além da
dança, teatro e performance, sendo essas a fotografia e o audiovisual. Os
registros obtidos com uma câmera ao longo do processo criativo serão parte da
criação da obra. Fotos, áudios e vídeos obtidos a partir dos seguintes
dispositivos: uma câmera de foto/vídeo, um gravador de som e celulares. Esses
registros serão feitos durante o processo criativo pelos próprios performers
durante as experimentações/performances, como ação e registro a um só tempo. Outros
registros serão feitos também por um artista que terá essa função específica no
trabalho. Esses registros serão também utilizados durante o processo e também
na realização da performance, compondo com as ações entre os corpos e espaços,
através de sons reproduzidos mecanicamente e imagens projetadas nos espaços da
cidade e nos corpos dos performers.
O processo criativo
O processo criativo será desenvolvido a partir de questões
feitas aos performer e respondidas ao longo de experimentações nos espaços a
serem definidos no processo criativo. Essas experimentações constituem
diferentes versões do trabalho que serão dobradas, desdobradas e redobradas ao
longo do processo. As questões se referem a uma escuta ampliada e contínua dos
padrões que organizam as ações nos espaços arquitetônicos definidos. Algumas
questões que já surgem são: o que percebo/sinto em cada espaço a cada ida, ou a
cada experimentação? Que ações surgem e porque em cada lugar investigado
esteticamente a partir da percepção das sensações e dos movimentos entre os
corpos e os espaços em relação?
Pretendo trazer à tona um jogo entre alguns opostos
complementares: a caminhada em linha contínua e os espaços como microuniversos
fragmentários, peças do cotidiano que compõem uma cidade; as ações que se
repetem, tal qual os padrões de ações e relações, os trajetos, estados
corporais e afetivos, os modos de sentir e perceber que se estabelecem nas
rotinas do dia-a-dia de cada um e o presente sempre instável e imponderável,
que influi na composição na forma dos acasos que acontecem e interferem na
relação entre os corpos, os espaços e as organizações previstas pelo próprio
programa da performance.
A caminhada resultante do processo criativo pretende passar
por diferentes espaços físicos, arquitetônicos e contextuais, espaços mais
abertos (mais ligados as matérias da natureza – terra, grama, ar), espaços mais
construídos (construções espaciais e arquitetônicas, o asfalto, o concreto, o
ferro e o vidro), espaços mais ocupados e mais ermos, o espaço universitário
(ambiente acadêmico) e o espaço da rua.
Fragmentos selecionados inicialmente:
Conhecimento e escuta:
- I: Ouvindo não a mim, mas ao lógos, é sábio concordar ser tudo-um. (p. 197)
- IX: Bem-pensar é a maior virtude, e sabedoria dizer coisas
verdadeiras e agir de acordo com a natureza, escutando-a (p. 198)
- XIV: Lasso, o homem em tudo deixa-se desvanecer-se diante
do lógos (p. 199)
- XVII: Do lógos
com que constantemente lidam, divergem, e as coisas que a cada dia encontram
revelam-se-lhes estranhas (p. 199)
- LXXVIII: O pensar é comum a todos (p. 210)
- LXXXIX: Em todos os homens está o conhecer a si mesmo e
bem-pensar (p. 210)
- XCV: Se não esperar, não encontrará o inesperado, sendo não
encontrável e inacessível (p. 212)
- CVI: Eu busco a mim mesmo (p. 214)
Cosmo:
- XXIX: O cosmo, o mesmo para todos, não o fez nenhum dos
deuses nem nenhum dos homens, mas sempre foi, é e será fogo sempre vivo,
ascendendo-se segundo medidas e segundo medidas apagando-se (p. 201)
XXX: Das coisas lançadas ao acas, a mais bela, o cosmo (p.
202)
-XXXIII: Heráclito
diz ser o cosmo, para os acordados uno e igual, enquanto, dos que estão
deitados, cada qual se volta para o seu cosmo particular (p. 202)
- XLIV: Sol, novo a
cada dia (p. 204)
- XLVI: A natureza de cada dia é uma e a mesma (p. 204)
Caminho e alma:
- XLVII: Caminho: em cima, embaixo, um e o mesmo (p. 204)
- XLVIII: Caminho dos pisoeiros, reto e curvo, é um e o mesmo
(p. 204)
- XCVI: Não encontrarias os limites da alma, mesmo todo o caminho
percorrendo, tão profundo logos possui
(p. 213)
- XCVII: Da alma é um logos
que a si mesmo aumenta (p. 213)
- XCIX: As almas farejam no invisível (p. 213)
- CIII: Recordar-se
também do que esquece por onde passa o caminho (p. 214)
Transformações:
- XLIX: No mesmo rio entramos e não entramos, somos e não
somos (p. 205).
- L: Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio (p. 205).
- LII: As coisas frias esquentam-se, o quente esfria-se, o
úmido seca, o seco umidifica-se (p. 206).
- LV: Para as almas é prazer ou morte tornarem-se úmidas (p.
206)
Sentidos corporais
(modalidades sensoriais):
- LXXIV: Dizia ser
a presunção doença sagrada e a visão, mentir (p. 209)
- LXXV: Os olhos são, de fato, testemunhas mais precisas do que
os ouvidos (p. 209).
- LXXVI: Para os homens que tem almas bárbaras, olhos e
ouvidos são más testemunhas (p. 209).
- LXXVII: Do que há visão, audição, aprendizado, eis o que eu
prefiro (p. 209).
Animais:
- XIII: Cães ladram somente para quem não reconhecem (p. 199)
- LXIII: Uma só coisa contra todas as outras escolhem os
melhores, a glória eterna dos mortais, a massa, porém, está empanzinada como o
gado (p. 207)
- CXIV: Água do mar: a mais pura e a mais impura: para os
peixes, potável e vital, para os homens, impotável e deletéria (p. 215)
- CXVI: O mais sábio dos homens, diante de deus, um macaco
revelar-se-á, na sabedoria, na beleza e em tudo mais (p. 215)
- CXVII: O macaco mais belo é feio comparado ao gênero humano
(p. 216)
- CXVIII: Asnos prefeririam ramagens a ouro (p. 216)
- CXIX: Se a felicidade
estivesse nos deleites do corpo, diríamos felizes os bois quando encontram ervilhaca
para comer (p. 216)
- CXX: Em lama compram-se os porcos mais do que em água limpa (p. 216)
- CXXI: Os porcos lavam-se na lama, as aves rasteiras no pó
(p. 216)
- CXXII Tudo que rasteja partilha da terra (p. 216)
- CXXX: Assim como a
aranha no centro da teia logo sente quando uma mosca rompe qualquer fio de sua
teia e, deste modo, corre pressurosa para lá, como se temesse pela integridade
do fio, também a alma do homem, lesada qualquer parte do corpo, dirige-se
rapidamente para lá, como se não suportasse a lesão do corpo a que está unida
firme e proporcionalmente. (p. 218)
Doença:
- CXIV: A doença faz da saúde coisa agradável e boa, a fome
da saciedade, a fadiga do repouso (p. 215)
- CXXVII: Os médicos, cortando, queimando e de todas as
maneiras torturando, ainda acusam despropositadamente os doentes por não
receberem deles, de jeito nenhum, a remuneração que merecem, fazendo os bens e
as doenças serem as mesmas coisas (p. 217)
Obra de referência dos
Fragmentos:
COSTA, Alexandre. Heráclito:
Fragmentos selecionados. Tradução, apresentação e comentários por Alexandre
Costa. – Rio de Janeiro: DIFEL, 2002.
ResíDuos
Rastros e restos
Rastroar
Caminhos insólitos
Incomundo
Incontitude
Corpoacaminho
Canteiros de trilhos
Trilhos
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