quarta-feira, 19 de abril de 2017

Nova seleção dos fragmentos de Heráclito

Fragmentos selecionados a partir do livro:
KAHN, Charles. A Arte e o pensamento de Heráclito. São Paulo: Paulus, 2009.

·         Fragmento 116:
“Não fosse Dionísio pelo qual marcham em procissão e cantam o hino ao falo, suas ações poderiam ser vergonhosas. Mas Hades e Dionísio são o mesmo, por quem deliram e celebram a Lenaia.”

Notas de rodapé:
- Falo: aidoia, rafe pudenda, genitália
- Hades: deus dos mortos
- Lenaia: festival dedicado a Dionísio, provavelmente caracterizado por danças frenéticas ou loucura ritual. O hino e a procissão ao falo se referem a um outro festival em honra do deus do vinho.
Comentários:
- No artigo “Heráclito e os eventos performativos” Marcus Mota (2010) analisa três fragmentos de Heráclito que tem referências a eventos que se organizam performativamente. Um desses fragmentos trata de uma procissão religiosa, sendo o aqui selecionado (116, que para Mota é o 15 - seguindo numeração da edição Diehls-Kraz). Os outros dois analisados são o 104, a respeito da arte do rapsodo e o 101, que se vincula a uma assembléia política.

- Mota considera três elementos em comum que aparecem nesses fragmentos e possibilitam a definição como eventos performativamente orientados: o ajuntamento de pessoas, a reunião dessas pessoas em função de algo e a realização de atos que se efetivam nesse encontro.
- Analisando o fragmento que trata do ritual religioso, Mota considera que se trata de um grupo de cultuantes que engaja-se nos atos de uma celebração religiosa: caracterizando um sujeito coletivo dos atos e que em primeiro plano estão as funções exercidas por este grupamento em função do ritual;

- Mota fala do deslocamento físico inscrevendo os corpos dos cultuantes na participação ritual durante a procissão. Fala também da ida em direção ao lugar dos sacrifícios.
“O deslocamento físico inscreve os corpos dos cultuantes na participação ritual. Ainda, seus corpos atravessam espaços públicos e abertos em direção ao lugar dos sacrifícios. Trata-se pois de um evento coletivo de grande magnitude, que sobrepõe aos caminhos da cidade uma outra trilha, revisando a geografia da cidade” (p. 98)

- Fala também dos atos de excessão que o ritual mobiliza:
“Essa passagem do habitual para o extraordinário movimenta atos de excessão: o espaço é tomado por pessoas que se integram em função do que o ritual demanda.” (p. 98)

- No fragmento analisado por Mota, a procissão ritual provoca uma mudança nos modos de agir, uma transformação que se dá no vestir, no andar e no uso da voz. A caminhada como produção/prática estética está ligada também a outras dimensões do ritual (música, canto e som), e também a dimensão multissensorial, a estimulação e ampliação da percepção de outros sentidos do corpo. Lembro que os cultuantes a Dionísio bebiam e também passavam misturas ao corpo, conhecidas como libações. Penso em outros modos de relação com o próprio corpo e com os espaços da cidade ao longo da caminhada. Deleuze fala de um espaço háptico, que estaria mais ligado a dimensão tátil. Penso em como provocar as pessoas a experimentarem os lugares de outras maneiras e também levar atenção aos outros sentidos do corpo.

“Para tanto, elas modificam seus modos de agir, e passam a se vestir, andar e usar a voz de outra maneira. A procissão não é apenas uma caminhada. Ela está indissoluvelmente conectada, a outras dimensões do ritual: à música, ao canto, aos sons, que, emitidos pelos celebrantes e pelos musicistas que acompanham o evento, multiplicam a presença física desse agrupamento na cidade e orientam ritmicamente as interações dos partícipes. A dimensão sonora, que complementa e esclarece o deslocamento da multidão, é bem marcada no texto (...)” (p. 98)

“Além disso, essa íntima conexão entre procissão e canção, entre o movimento dos pés e o da boca nos situa diante da dança, e não simplesmente de relações palavra-música. A canção entoada não se resume à voz e à linguagem verbal. Cantando em movimento, os cultuantes se vêem impelidos a participar totalmente daquilo que celebram, com todas as possibilidades de seus corpos. Essa multidão de pessoas cantando e dançando é o suporte de uma ampla exposição de si mesmas e dos atributos do deus que festejam.” (p. 98/99)

- Movimento rítmico coletivo:
- A ausência de uma clara distinção entre dança e possessão e outras formas de movimento ritual nos encoraja a ampliar a definição de dança grega por considerar movimento rítmico como outra forma de comportamento comunal combinado com atos de sacrifício e beber vinho.  Como uma categoria de jogo ritual, a dança deve ser considerada como operando dentro do contexto particular dos festivais e encontros. Embora a dance incorpore movimentos do mundo do dia-a-dia, ela assume o modelo divino e, portanto, funciona de acordo com regras que são fundamentalmente diferentes daquelas que interpretam o comportamento fora deste contexto.

- Questões:
- Cantando em movimento;
- Todas as possibilidades de seus corpos;
- A multidão como suporte de uma ampla exposição de si e dos atributos de Dionísio;
- Quais os atributos desse deus? Como experimentar esses atributos no movimento e ações? Como experimentar a exposição de si também?
- O que fazemos em multidão e em situações performativas, celebrativas, rituais?

- No Fragmento fala de ações vergonhosas (as coisas mais vergonhosas): o que te envergonha ou o que você faz que te envergonha (o que você faz quando ninguém vê, ou o que faria sozinho mas não em público?)

- Mota fala de um entrechoque que aparece no fragmento entre as dimensões ordinária e extraordinária, entre aquilo que é realizado nos rituais e a esfera cotidiana da vida (p. 99)

- Contraposição só é possível pela presença comum de um grupo de pessoas nas duas situações em confronto: os que performam os rituais e os que agem no cotidiano;

“O entrechoque entre as situações mostra que não é o que os grupos fazem o que determina a censura e sim a estrutura do acontecimento ao qual vinculam seus atos. As mesmas pessoas fazem as mesmas coisas em contextos diversos. No entanto, nem o que fazem, nem o que são é o mesmo em virtude da ocasião de performance. Cantar, dançar e cantar segurando um falo pelas ruas pode ser permitido e suportável a partir do momento que esses atos integrem um programa de atividades de determinado evento” (p. 99, 100).

- Porque minha ideia é jogar com esses choques entre contextos privado, público, cotidiano, artístico, os limites entre esses contextos. Entre o permitido e o suportável.

- Ideia: pegar trechos de discursos jurídicos, médicos, religiosos e educacionais que tratam do corpo.

“Antes, procura demonstrar em concisa expressão verbal a amplitude daquilo que se mostra diante de seus olhos e ouvidos: o comportamento das pessoas configura-se como resposta a expectativas de padrões presentes no arranjo dos eventos, padrões estes que possibilitam as condições de participação. Essa lógica comportamental, embora específica em cada arranjo, melhor se evidencia quando comparada a outros arranjos. Pois a compreensão da construtividade de uma lógica comportamental se faz possível pelo entendimento de sua inclusão no todo social, na copresença de outros modos de agir e outras formas de participação.” (p. 100).

- Que deuses celebramos ou podemos celebrar hoje?
- A cidade, o corpo, a natureza, as relações, os sentidos? Ou as fissuras das normatividades, das percepções hegemônicas, das ordens físicas, sociais, morais, urbanas, espaciais e arquitetônicas que orientam a vida nas cidades atuais?

- Sobre esse fragmento Charles Kahn fala da identificação entre Dionísio e Hades:
“O que Heráclito quer dizer com a identificação entre Dionísio e Hades, e entre o culto do falo e o frenesi báquico? A declaração é um enigma, e por isso devemos nos satisfazer com soluções de caráter parcial” (p. 414)
Nota de rodapé (p. 414):
“(...) Heródoto transmite como uma peculiaridade da religião egípcia o fato de, nesse país se atribuir a Dionísio (i.e. Osíris) o título de rei dos mortos. O sarcasmo do fragmento CXVI implica que os homens não reconhecem a propriedade do ritual fálico realizado em sua homenagem, que repousa precisamente sobre essa identificação” (p. 414)
- Equivalência entre vida e morte:
“A interpretação correta mais óbvia do fragmento toma Hades como representando a morte e o fálico Dionísio como um representante da vitalidade sexual. Entendido desse modo, o enigma reformula a equivalência (i.e. a intercambialidade) da vida e da morte expressa em XCII e XCIII.” (p. 415)
- Atividade sexual como desperdício da psique e embriaguez como morte parcial:
Uma segunda leitura, mais profunda, entende Dionísio não apenas como o deus da vitalidade e da procriação, mas também da bebida e da loucura. Mais atrás eu sugeri que o fragmento XCVIII oferece um retrato da atividade sexual como um desperdício de psique, um gasto de força vital liquefeito como sêmen, assim como a embriaguez é uma morte parcial e um obscurecimento da alma por liquefação (CVI). A “morte” da ´psique pelo “nascimento” do fluido na ejaculação coincide, no longo prazo, com o nascimento do filho destinado a suplantar o pai. Assim, o desejo dos homens “de viver... e deixar filhos atrás de si” passa a ser realmente um desejo pela própria morte e substituição” (p. 415)
- Identificação entre o deus da sexualidade e o deus da morte:
“A identificação do deus da sexualidade com o deus da mote, reforçada pelo jogo com a palavra “vergonha”, “hino fálico”, “falta de vergonha”, e Hades, reafirma em forma simbólica o desprezo pela vida e pela morte de homens se fartam como gados (XCVII). O que é novo no fragmento CXVI é a caracterização do deus fálico em termos de loucura ritual (p. 415)
- A loucura ritual:
“A Lenaia aparece no contexto como um festival marcado pelo frenesi báquico, não uma simples festa do vinho (...). Dionísio é o deus do vinho; mas o texto não faz qualquer menção a vinho ou embriaguez. A ideia central do fragmento reside na referência à loucura ritual como uma explicação da identidade de Dionísio com Hades. O comentário final sobre a adoração fálica seria, assim, o pensamento expresso em CXVII: “Qualquer um que visse (ou observasse) alguém procedendo assim pensaria que era louco”. Um observador perceptivo da mania ritual, reconhecendo-a como mera insanidade, veria a propriedade de adorar deus da sensualidade e da procriação como atos de loucura.” (p. 416)
“Trata-se da verdadeira falta de (bom) senso e do autêntico esquecimento de si, “não saber o que se faz quando acordado, assim como os homens se esquece do que fazem durante o sono”, desperdiçar a própria psique na satisfação dos apetites sexuais ou obscurece-la com a loucura (e nós acrescentaríamos: com o uso de drogas); não se dando conta de que aquilo que, aos olhos do vulgo, possa ser o cúmulo da vitalidade nada mais é que a procura da morte”. (p. 416)
- A lucidez:
“O que o preocupa é nem tanto a ação ou abstenção, mas a lucidez: saber o que estamos fazendo. Seres humanos, nós nos saciamos como animais; queremos ver nossos filhos crescerem e sobreviver a nós (além disso, também perdemos o controle de nós mesmos nos momentos de raiva e ocasionalmente umedecemos as nossas almas com bebida). (416/417). Heráclito não está clamando por algum tipo de reforma ascética da existência humana na qual essas coisas deveriam desaparecer. Nossa condição é de mortalidade e Heráclito não nos oferece nenhuma saída. O que ele oferece é um insight sobre essa condição, o reconhecimento das tendências mortais no interior da própria vida, e a admiração por aqueles poucos homens cuja visão é iluminada pela sabedoria. Pois eles olharam para além do destino cíclico que em todo caso deve ser o nosso, escolhendo “uma única coisa em troca de tudo” -  a luz da sabedoria simbolizada e encarnada no raio de fogo cósmico” (p. 417).
- Lembrei do filme “Amarelo Manga” e da frase: “o homem é sexo e estômago”.
- Condição de mortalidade:
“Não se trata de um incentivo ao suicídio mas à aceitação da morte, a sua própria morte e a morte daqueles que lhe são caros, com a coragem e a paz de espírito que vêm da amarga sabedoria” (p. 417).
- Duplo sentido de aidos: como vergonha e reverência:
“O jogo de palavras que está no centro do fragmento CXVI demanda algum comentário. A identificação entre Dionísio e Hades, fertilidade e insanidade, é mediada por conexões verbais entre os genitais (aidoia), vergonha (aidos), falta de vergonha (anaidestata) e Hades (Aidès). O falo sagrado é designado como “partes pudendas”, objetos de vergonha ou modéstia (aidoia). Mesmo com todo o deleito que os gregos demonstravam ter na nudez masculina em suas obras de arte, na vida real a genitália ficava normalmente coberta; e a exibição pública de um pênis ereto seria provavelmente uma fonte de zombaria, senão de vergonha mesmo, como algumas anedotas transmitidas na Lisístrata de Aristófanes deixa claro. Daí o paradoxo, expresso no duplo sentido de aidos (“vergonha”, mas também “reverência”) implicado no fato de a exibição de um falo gigante de forma marcadamente exagerada ser tratada não como vergonha, mas com reverência e respeito. As canções obscenas e a procissão solene passariam, assim, a denotar atos de uma extrema falta de vergonha – anadeistata -, não fossem elas realizadas em nome de Dionísio. (...) O que evita que o seu comportamento seja ultrajante a seus próprios olhos é precisamente a identidade entre Dionísio e “o que não é visto” (Aidés), o deus da morte. Compare-se o texto com o fragmento CXI: “As almas farejam no Aidés, no lugar onde elas não podem ver. (p. 418).

·         Fragmento 103:
“O caminho para cima e o caminho para baixo são um e o mesmo” (p. 98)
Comentários:
Charles Kahn: “Eu coloquei o texto nesse lugar para que ele servisse como um comentário sobre o destino cíclico da psique definido como uma passagem por formas elementais a mesmo tempo superiores e inferiores. Ambas as interpretações, psicológica e elemental do fragmento CII encontram-se bem atestadas nos comentários antigos. E não há qualquer necessidade de escolher entre elas, uma vez que os elementos e a psique são apenas diferentes fases ou de uma única realidade, acender e apagar do fogo cósmico” (p. 374)
“Há ainda uma interpretação bem mais literal” (p. 374)
- A partir dessa interpretação literal o caminho tem a ver com o ponto de vista de quem percorre, depende da posição do corpo em relação ao caminho.
- Charles Kahn fala sobre esse fragmento ao analisar outro fragmento, o 102.

·         Fragmento 102:
“Para as almas (psychai) é morte tornar-se (ou nascer como) água, para a água é morte tornar-se terra; da terra surge (nasce) a água, e da água a alma (psyché).
Comentários:
- Kahn comenta o fato de ser esse mais uma composição circular de Heráclito, que acaba onde começou com a palavra psyché. Comenta ainda da passagem do plural (psychai) ao singular (psyché).
“A forma no plural (...) sugere a referência à alma ou sopro vital dos homens individuais, que, na crença popular, abandona o corpo na morte e passa como um fantasma para o mundo subterrâneo. Mas a forma singular aponta para a psyché como um elemento constitutivo da ordem natural, como a terra ou a água (...). Desse modo, Heráclito substitui o retrato homérico da descida das pschai humanas para o submundo pela sua própria versão do caminho elemental “para baixo”, em direção, sucessivamente, à água e à terra, e em seguida os mesmos estágios são repetidos em ordem inversa, como “caminho para cima” (p. 370).
“Apenas a transição para cima na direção da água p e da terra é descrita como morte (assim como nascimento); o retorno para cima é descrito apenas como nascimento ou vir a ser” (p. 370)
“Na medida em que os caminhos para cima e para baixo são “um e o mesmo”, todo nascimento também pode ser descrito como morte. Mas há ainda um outro sentido no qual o caminho para baixo é mais verdadeiramente o caminho da mortalidade, o apagar do fogo, enquanto o caminho para cima é, nesse mesmo sentido, o caminho da vida e do reacendimento” (p. 370)
- A psyché está ligada as transformações físicas e aos ciclos dos elementais:
“O que é novo (...) é a descrição dessa transições em termos de morte e nascimento, e a presença da psyché no princípio e no fim da série. Esses dois pontos estão relacionados entre si. Para Heráclito tudo é um forma de vida, e não pode haver nenhuma descontinuidade fundamental entre o reino da psyché e o das transformações elementais. O fragmento CII deixa isso bastante claro ao integrar a psyché no interior de uma série de transformações físicas”.

·         Fragmento 106:
“Um homem quando bêbado é conduzido por um rapaz imberbe, cambaleando, sem perceber para onde vai, tendo a alma úmida” (p. 99)
Alma: espírito vital ou vitalidade. (p.99)
Alma: psyché, sopro de vida, vida; espírito, fantasma; espírito, alma. (p. 72)
Comentários:
“(...) referência à dissolução psíquica ou “morte” parcial no elemento líquido” (p. 380)
- Kahn aponta ressonância também com outros fragmentos, por exemplo, o que se refere a rapaz imberbe (anebos) o fragmento que diz que “deveriam ser enforcados até o último homem (Hebedon) e deixar a cidade para os garotos (aneboi)”; estes cidadão cambaleiam como bêbados, e um bêbado é pior que uma criança” (p. 380)
“Assim, de modo semelhante, o verbo epaion “(sem) perceber (por onde vai)”, ecoa por inversão a definição de temperança como “pensar bem””, sophronein em XXXII: “agir e falar... percebendo (epaiontes) as coisas de acordo com sua natureza”. (p. 380)
“Como assinala Bollack-Wismann, as construções em particípio desenvolvem uma espécie de análise causal em três estágios: o homem perdeu o controle de seu corpo, porque perdeu a sua percepção e porque a lucidez da sua psique foi enfraquecida pelos fluidos que ele ingeriu” (p. 380)

Roteiro a partir do primeiro experimento


1º Experimento: Caminhada coletiva pela cidade
Data: 23/3/2017
Local: Campus da UnB, entre o Departamento de Artes Cênicas, o Restaurante Universitário e o Instituto Central de Ciências.
Participantes: Turma da Disciplina Seminário Avançado, do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas.

Roteiro a partir da primeira experimentação:


Agentes
Ações
Espaço
Ator e caminhantes
Comunicar aos participantes sobre a proposta da caminhada e passar algumas instruções: pedir que ampliem a atenção para os sentidos corporais, entregar uma câmera fotográfica e dizer que quem se sentir interessado se sinta convidado a fazer registros da ação durante o percurso
Departamento de Artes Cênicas – UnB
Ator
Caminhar ao primeiro ponto do trajeto: ida do Departamento de Artes Cênicas até a parte externa do Restaurante Universitário; Rolar rápida e ininterruptamente pela grama com o corpo esticado, pernas e braços estendidos, como se rolasse por um barranco
Gramado ao lado do Restaurante Universitário
Ator
Me apoiar com outras partes dos braços e pernas que não mãos e pés pelo concreto e descansar apoiado em um degrau; sentir o sol na pele úmida; 
Na área externa do R.U., espaço amplo de concreto
Ator
Andar desequilibrado pela grama e entrar em um cilindro de concreto dentro de um buraco na terra; 
Gramado e terra atrás do R.U.
Ator
Me enganchar por entre as estruturas de um bicicletário de ferro que forma um túnel; 
Em frente à entrada do ICC
Ator
Compor com objetos dispostos no espaço (ares-condicionados), observar as pessoas que passam, com o olhar mais na altura do chão
Em frente à entrada do ICC
Ator
Mover a partir das sensações provocadas pelos cheiros de comida e pelas muitas pessoas passando por ali; Arrastar, deslizar o corpo pelas linhas da parede; 
No hall das lanchonetes dentro do ICC
Ator
Compor com um vidro e olhar as pessoas através dele
Numa sala de aula no ICC
Ator
Compor com uma seta feita de fita adesiva amarela em uma coluna de concreto; Deslizar o corpo e a roupa no lodo dentro de uma bacia de concreto; 
No corredor do ICC
Ator
Engatinhar pelo chão me deslocando de um ponto à outro do espaço
No corredor do ICC
Ator
Tirar a roupa, dispor cada peça ao longo de uma linha e me deitar nu no final dessa linha, cortando o gramado; espreguiçar o corpo, abrir o corpo, pernas e braços articulando pelo chão, a partir das sensações da grama e do sol 
Gramado do lado de fora do ICC, em frente aos portões











quarta-feira, 12 de abril de 2017

Pensamentos sobre planos de composição

De uma conversa que tive com a Erika na semana passada, algumas coisas me surgiram hoje, voltando da última aula da turma. Pensei sobre planos de composição, pode parecer bobo, mas pra mim foi um insight. Eu e Erika conversamos sobre a relação entre perspectivas da visão e a experiência da percepção. Ela me falou sobre a diferença de se olhar algo a partir de diferentes angulações, diferença que modifica a percepção que temos de algo, modifica a própria experiência corporal de quem vê. Pensando então nos níveis do espaço, a partir dos pensamentos de Rudolph Laban, teríamos os níveis alto, médio e baixo. Chegamos nesse assunto porque durante uma primeira experimentação que fiz como parte desse processo criativo, a partir da apresentação de uma ação poética realizada como parte de uma outra disciplina no mestrado, que consistia em uma performance em deslocamento, em caminhada, uma andada, uma andança, em um trajeto que passava por alguns espaços da Universidade de Brasília, com os quais eu me relacionava a partir de algumas ações corporais. Dessa performance, a Erika me disse que meu corpo funcionava como um dispositivo de percepção do espaço e que os lugares que eu ocupava em cada espaço, apontava o olhar para estes outros níveis do espaço. Pensando nisso, voltando pra casa hoje, passei a obsrvar tudo como um plano de composição: comecei a olhar a paisagem em seus níveis. A Erika me disse que estava fazendo aulas com a professora Karina Dias, na UnB, e que ela havia falado sobre a divisão dos níveis em uma paisagem a partir do olhar (pelo menos foi o que eu entendi), sobre olhar a paisagem como um quadro e perceber quanto de "cada elemento" (céu, asfalto, grama, por exemplo) aparece nesse plano de composição. Passei a pensar em fotografar diferentes espaços com diferentes proporções e distribuições dos elementos nos níveis do espaço. Pensei também em fazer isso com a imagem do corpo.
Ao ver um conjunto em sequência de placas de trânsito em uma curva >>>>>>>, fiquei pensando em fotografar mãos, uma em sequência da outra com pequenas mudanças, ou diferentes mãos, ou pés.
Outra imagem que me veio foi o modo como os elementos de cada elemento estão dispostos em cada nível, por exemplo, no nível preenchido de asfalto, vão se acumulando um, dois, três, quatro, cinco carros e assim sucessivamente, até que o plano de asfalto é sobreposto pelos carros, o plano entra em saturação de elementos, gera um outro nível.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Pré-projeto de Criação - 1ª Versão

Fragmentos cotidianos: Um percurso por entre microuniversos urbanos

Interesses nos Fragmentos de Heráclito:
- Escuta do cotidiano em espaços na cidade;
- Percepção e jogo com os padrões dos movimentos dos corpos nos espaços na cidade;
- Os animais de Heráclito e as possíveis relações com questões do corpo urbano civilizado das/nas cidades contemporâneas;
- Os ciclos cósmicos e corporais, os elementos, as matérias da natureza e os sentidos corporais (escuta dos sentidos, escuta de corpo todo, corpo/ambiente, corpo/cidade).

Proposta de ação:
A ideia é desenvolver uma performance que consistirá na proposição de uma caminhada junto ao público por alguns espaços arquitetônicos na Universidade de Brasília, com cerca de 15 min de duração por alguns lugares pré-definidos, na experiência de um trajeto coletivo. Durante o trajeto, os performers proporão algumas composições e intervenções no e com os espaços construídos, compreendidos como espaços vividos, espaços de experiência e de jogo, entre corporeidades e espacialidades. A busca é por experimentar corporeidades preenchidas por espacialidades diversas e específicas, em um jogo constante entre corpo e espaço, movimentos e paragens.

Ao iniciar, os participantes são informados da caminhada e da condução do trajeto pelos performers. Será pedido que abram/ampliem a atenção para os sentidos todos do corpo (tato, olfato, paladar, visão e audição) e será dada uma câmera ao público, pedindo que quem tiver interesse se sinta convidado a usar a câmera e registrar, do modo que quiser, a performance.

Essa ideia de caminho aparece em alguns fragmentos de Heráclito e também a de observação do cotidiano da cidade como processo criativo e também obra. Os Fragmentos são o filósofo passeando pela cidade e falam do cosmos, do viver em sociedade e do sagrado/religião.

Os Fragmentos apontam para uma escuta ampliada do cotidiano, dos espaços da cidade e suas relações com a nossa sociedade e com nosso modo de compreender e lidar com as forças da natureza. Essa escuta me leva a pensar nos padrões de movimento e comportamento que se apresentam na cidade e, também, nos modos de uso previstos e estabelecidos para o corpo e o espaço no contexto urbano e cotidiano. Para lidar com esses padrões perceptivos e de ação do corpo na cidade, pretendo me utilizar de um procedimento que Heráclito faz uso: o deslocamento do referente de seu contexto e sentidos reconhecidos, provocando estranhamento e gerando outros sentidos.

A proposta é investigar como os espaços urbanos e arquitetônicos podem convidar os corpos ao jogo e a composição, através do entendimento do corpo como campo relacional de forças e trocas contínuas com o ambiente. Além disso, a performance pretende ser um dispositivo de ampliação da percepção para o espaço, que desperte performer e público a olhar, perceber, sentir e dizer os espaços sob outros pontos de vista, outras perspectivas. Esse dispositivo pretende revelar o espaço como lugar de múltiplas práticas e discursos, microuniversos cotidianos e urbanos, sendo o corpo espaço de discurso e espaço de ação, criação, memória e reflexão, e a performance um dispositivo que dispara e desdobra questões nos cruzamentos entre as dimensões ético-estética, formal-geométrica, social, moral, histórica e política dos corpos e espaços construídos, vividos, urbanos e arquitetônicos.

A performance pretende abordar e apontar o caráter construído, apreendido e limitante das relações com o corpo e o espaço na cidade. Heráclito, em seus fragmentos, desperta a atenção para uma escuta ampliada da cidade, para aquilo que é visível e também invisível, uma ordem oculta de todas as coisas, mas que também se manifesta.

Por isso, pretendo evidenciar a concepção construída atualmente de um corpo urbano e civilizado que se dá numa busca por controle do corpo e da natureza e que se revela na cidade, um corpo em se opõe aos animais. Alguns fragmentos de Heráclito relacionam homens e animais. As figuras e movimentações de animais servirão também como estímulo criativo no processo. Pretendo ainda, neste sentido, abordar os caráteres médico, jurídico e militar presentes nos espaços urbanos contemporâneos e em nossa relação com o próprio corpo e com a cidade. Nesse sentido, serão utilizados elementos como luvas, toucas, sapatos de isolamento, máscaras médicas, roupas de exame médico, hospitalares, etc. nas experimentações ao longo do processo.

O trabalho pretende evidenciar contradições ou oposições de sentidos, ideias, imagens, através das ações que gerem um cruzamento entre diferentes camadas de sentido entre corpo e espaço na cidade. Revelar aspectos invisíveis ou à margem da percepção dominante e dos modos de uso preestabelecidos e previstos para os corpos e espaços urbanos e arquitetônicos. Trazer à percepção aspectos normalmente postos fora de cena na vida social, a sujeira e as impurezas do espaço urbano e do meio social, e aspectos como o nojo, a doença, a morte, o feio, o estranho e a decrepitude.

Outras linguagens
Pretendo dialogar com outras linguagens artísticas, além da dança, teatro e performance, sendo essas a fotografia e o audiovisual. Os registros obtidos com uma câmera ao longo do processo criativo serão parte da criação da obra. Fotos, áudios e vídeos obtidos a partir dos seguintes dispositivos: uma câmera de foto/vídeo, um gravador de som e celulares. Esses registros serão feitos durante o processo criativo pelos próprios performers durante as experimentações/performances, como ação e registro a um só tempo. Outros registros serão feitos também por um artista que terá essa função específica no trabalho. Esses registros serão também utilizados durante o processo e também na realização da performance, compondo com as ações entre os corpos e espaços, através de sons reproduzidos mecanicamente e imagens projetadas nos espaços da cidade e nos corpos dos performers.

O processo criativo
O processo criativo será desenvolvido a partir de questões feitas aos performer e respondidas ao longo de experimentações nos espaços a serem definidos no processo criativo. Essas experimentações constituem diferentes versões do trabalho que serão dobradas, desdobradas e redobradas ao longo do processo. As questões se referem a uma escuta ampliada e contínua dos padrões que organizam as ações nos espaços arquitetônicos definidos. Algumas questões que já surgem são: o que percebo/sinto em cada espaço a cada ida, ou a cada experimentação? Que ações surgem e porque em cada lugar investigado esteticamente a partir da percepção das sensações e dos movimentos entre os corpos e os espaços em relação?

Pretendo trazer à tona um jogo entre alguns opostos complementares: a caminhada em linha contínua e os espaços como microuniversos fragmentários, peças do cotidiano que compõem uma cidade; as ações que se repetem, tal qual os padrões de ações e relações, os trajetos, estados corporais e afetivos, os modos de sentir e perceber que se estabelecem nas rotinas do dia-a-dia de cada um e o presente sempre instável e imponderável, que influi na composição na forma dos acasos que acontecem e interferem na relação entre os corpos, os espaços e as organizações previstas pelo próprio programa da performance.

A caminhada resultante do processo criativo pretende passar por diferentes espaços físicos, arquitetônicos e contextuais, espaços mais abertos (mais ligados as matérias da natureza – terra, grama, ar), espaços mais construídos (construções espaciais e arquitetônicas, o asfalto, o concreto, o ferro e o vidro), espaços mais ocupados e mais ermos, o espaço universitário (ambiente acadêmico) e o espaço da rua.

Fragmentos selecionados inicialmente:
Conhecimento e escuta:
- I: Ouvindo não a mim, mas ao lógos, é sábio concordar ser tudo-um. (p. 197)
- IX: Bem-pensar é a maior virtude, e sabedoria dizer coisas verdadeiras e agir de acordo com a natureza, escutando-a (p. 198)
- XIV: Lasso, o homem em tudo deixa-se desvanecer-se diante do lógos (p. 199)
- XVII: Do lógos com que constantemente lidam, divergem, e as coisas que a cada dia encontram revelam-se-lhes estranhas (p. 199)
- LXXVIII: O pensar é comum a todos (p. 210)
- LXXXIX: Em todos os homens está o conhecer a si mesmo e bem-pensar (p. 210)
- XCV: Se não esperar, não encontrará o inesperado, sendo não encontrável e inacessível (p. 212)
- CVI: Eu busco a mim mesmo (p. 214)
Cosmo:
- XXIX: O cosmo, o mesmo para todos, não o fez nenhum dos deuses nem nenhum dos homens, mas sempre foi, é e será fogo sempre vivo, ascendendo-se segundo medidas e segundo medidas apagando-se (p. 201)
XXX: Das coisas lançadas ao acas, a mais bela, o cosmo (p. 202)
-XXXIII: Heráclito diz ser o cosmo, para os acordados uno e igual, enquanto, dos que estão deitados, cada qual se volta para o seu cosmo particular (p. 202)
- XLIV: Sol, novo a cada dia (p. 204)
- XLVI: A natureza de cada dia é uma e a mesma (p. 204)
Caminho e alma:
- XLVII: Caminho: em cima, embaixo, um e o mesmo (p. 204)
- XLVIII: Caminho dos pisoeiros, reto e curvo, é um e o mesmo (p. 204)
- XCVI: Não encontrarias os limites da alma, mesmo todo o caminho percorrendo, tão profundo logos possui (p. 213)
- XCVII: Da alma é um logos que a si mesmo aumenta (p. 213)
- XCIX: As almas farejam no invisível (p. 213)
- CIII: Recordar-se também do que esquece por onde passa o caminho (p. 214)
Transformações:
- XLIX: No mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos (p. 205).
- L: Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio (p. 205).
- LII: As coisas frias esquentam-se, o quente esfria-se, o úmido seca, o seco umidifica-se (p. 206).
- LV: Para as almas é prazer ou morte tornarem-se úmidas (p. 206)
Sentidos corporais (modalidades sensoriais):
- LXXIV: Dizia ser a presunção doença sagrada e a visão, mentir (p. 209)
- LXXV: Os olhos são, de fato, testemunhas mais precisas do que os ouvidos (p. 209).
- LXXVI: Para os homens que tem almas bárbaras, olhos e ouvidos são más testemunhas (p. 209).
- LXXVII: Do que há visão, audição, aprendizado, eis o que eu prefiro (p. 209).
Animais:
- XIII: Cães ladram somente para quem não reconhecem (p. 199)
- LXIII: Uma só coisa contra todas as outras escolhem os melhores, a glória eterna dos mortais, a massa, porém, está empanzinada como o gado (p. 207)
- CXIV: Água do mar: a mais pura e a mais impura: para os peixes, potável e vital, para os homens, impotável e deletéria (p. 215)
- CXVI: O mais sábio dos homens, diante de deus, um macaco revelar-se-á, na sabedoria, na beleza e em tudo mais (p. 215)
- CXVII: O macaco mais belo é feio comparado ao gênero humano (p. 216)
- CXVIII: Asnos prefeririam ramagens a ouro (p. 216)
- CXIX: Se a felicidade estivesse nos deleites do corpo, diríamos felizes os bois quando encontram ervilhaca para comer (p. 216)
- CXX: Em lama compram-se os porcos mais do que em água limpa (p. 216)
- CXXI: Os porcos lavam-se na lama, as aves rasteiras no pó (p. 216)
- CXXII Tudo que rasteja partilha da terra (p. 216)
- CXXX: Assim como a aranha no centro da teia logo sente quando uma mosca rompe qualquer fio de sua teia e, deste modo, corre pressurosa para lá, como se temesse pela integridade do fio, também a alma do homem, lesada qualquer parte do corpo, dirige-se rapidamente para lá, como se não suportasse a lesão do corpo a que está unida firme e proporcionalmente. (p. 218)
Doença:
- CXIV: A doença faz da saúde coisa agradável e boa, a fome da saciedade, a fadiga do repouso (p. 215)
- CXXVII: Os médicos, cortando, queimando e de todas as maneiras torturando, ainda acusam despropositadamente os doentes por não receberem deles, de jeito nenhum, a remuneração que merecem, fazendo os bens e as doenças serem as mesmas coisas (p. 217)

Obra de referência dos Fragmentos:
COSTA, Alexandre. Heráclito: Fragmentos selecionados. Tradução, apresentação e comentários por Alexandre Costa. – Rio de Janeiro: DIFEL, 2002.

ResíDuos
Rastros e restos
Rastroar
Caminhos insólitos
Incomundo
Incontitude
Corpoacaminho
Canteiros de trilhos

Trilhos

Deformar a percepção

Nas experimentações que estamos fazendo do corpo na cidade, temos pensado em duas coisas: - perceber/reconhecer os padrões do espaço pelo...